Dossier

Maria da Conceição, uma mulher negra de cabelos grisalhos e camisola branca, nasce de quase um século de prontuários de mulheres internadas no antigo Hospício Nacional de Alienados, palácio histórico que hoje é parte da UFRJ. Ela circula pelos corredores do campus, quase invisível, enquanto funcionários contam com espontaneidade e humor histórias de aparições, vozes e acontecimentos inexplicáveis. Maria escuta. E começa a procurar os fragmentos de mulheres que desapareceram atrás de diagnósticos.

Entre arquivos, salas e vestígios do antigo hospício, ela encontra histórias de mulheres internadas por quererem estudar, recusarem o casamento, expressarem sua sexualidade ou simplesmente por quererem viajar sozinhas. Seus corpos foram submetidos a tratamentos violentos e suas vidas reduzidas a palavras como “histérica”, “imunda” e “incorrigível”.

A investigação de Maria atravessa o tempo e encontra mulheres do presente, como a escritora Helena Lahis, internada à força em 2019, e Rogéria Barbosa, artista institucionalizada na adolescência e que encontrou na poesia uma forma de reconstruir a própria vida. Suas histórias revelam que a disputa sobre quem pode definir a realidade de uma mulher não ficou no passado.

Entre o humor, o assombro e a violência dos arquivos médicos, Maria vai deixando de ser uma aparição para se tornar companheira dessas mulheres. No mesmo lugar onde tantas foram confinadas, estudantes ocupam hoje os corredores. A universidade segue viva sobre essas histórias.

Os fantasmas também.

Sou realizadora e montadora baseada no Rio de Janeiro. Paralelamente à minha trajetória como montadora de não-ficção, desenvolvo filmes independentes. Fui selecionada para o Berlinale Talents Buenos Aires (2020) e para o edital de Artes Visuais da Escola de Artes Visuais do Parque Lage em 2025, voltado a artistas emergentes.

Meu primeiro longa-metragem documental, Um Dia para Susana (2018), recebeu apoio do Tribeca Film Institute e estreou na 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O filme também foi exibido nos festivais de Havana, Atlanta, Gdańsk e MICGénero, recebeu Menção Honrosa no This Human World e venceu o prêmio de Melhor Filme no FICFUSA 2020. Foi distribuído pela Vitrine Filmes, exibido no Canal Brasil e Tv Brasil.

Meus curtas-metragens Quem Matou Chiquito Chaves? (2019), Banca Paraíso (2021) e Do Observatório Me Viram (2024) foram exibidos em festivais como Tiradentes, Málaga, Atlantidoc, Curta Cinema, Kinoarte e Bogoshorts. Recebi o Prêmio do Júri no 22º Ismailia International Film Festival e o Prêmio de Melhor Curta-Metragem Brasileiro no 13º LoboFest. Atualmente, desenvolvo Phantasmas Anonymas, apoiado pela Lei Paulo Gustavo, selecionado para o BGDM MafiaMind Cohort 2026. Também desenvolvo o curta Pavilhão de Observação, contemplado pelo Edital de Produção RioFilme 2026.

• Do Observatório me Viram [2024 – 23min]

27º Mostra de Tiradentes; 31º Festival de Vitória; 26º Curta Kinoforum;

7º Hecho por Mujeres (Prêmio do Júri); 50º Marin County International Film Festival.

• Banca Paraíso [2021 – 25min]

22º Ismailia International Film Festival (Prêmio do Júri); 24º Festival de Málaga;

13º Lobo Fest (Best Short Film Award); 17ª Festival Imagem-Movimento (FIM);

9º Liberation Docfest Bangladesh.

• Quem Matou Chiquito Chaves? [2019 – 15min]

Festivals: 13º Atlantidoc; 30º Curta Cinema; 8º Liberation DocFest; 18º Bogoshorts;

11º Macau Intl. Short Film Festival; 8º Ver Cine.

• Um dia para Susana [2018 – 85min]

Tribeca Film Institute Fund; DocSP 2015, 42º Mostra Internacional de São Paulo;

40º Festival de Havana; 43º Atlanta Film Festival; 17º Gdańsk Film Festival;

8º MICGénero; 13º This Human World (Menção Honrosa do Júri);

FICFUSA 2020 (Prêmio de Melhor Filme).

Phantasmas Anonymas nasceu do silêncio. Estudei no campus UFRJ da Praia Vermelha, mas sua história quase nunca era mencionada; esse apagamento foi o ponto de partida do filme. Esse silêncio institucional ecoava outro silêncio dentro da minha própria família. Minhas duas avós foram internadas à força por seus maridos e submetidas a tratamentos psiquiátricos violentos. Suas histórias chegaram até mim em fragmentos, atravessadas por eufemismos, omissões; esse tipo de conhecimento familiar que todos percebem, mas que ninguém nomeia diretamente. Quando comecei a pesquisar o Palácio, a separação entre história pública e particular desmoronou.

A história do hospício não está encerrada. As internações psiquiátricas involuntárias voltam a crescer no Brasil, enquanto mulheres continuam sendo desmerecidas por meio de diagnósticos atravessados por gênero, raça, classe e expectativas sobre comportamentos considerados aceitáveis. Padrões semelhantes aparecem internacionalmente, desde o diagnóstico desproporcional de esquizofrenia entre mulheres negras nos Estados Unidos até os persistentes vieses de gênero em internações em países europeus. Para mim, essas continuidades levantam uma questão: quem possui autoridade para decidir quando a recusa, a raiva, o luto ou a sexualidade de uma mulher passam a ser considerados evidências de que ela já não é capaz de falar por si?

O arquivo não nos dá acesso direto a essas mulheres. A maior parte dos registros que sobreviveram foi escrita por médicos homens e por instituições que as observavam através da linguagem da doença. Por isso, não trato o arquivo como um registro completo ou neutro. A fabulação torna-se uma forma de me aproximar daquilo que os documentos excluíram, sem pretender reconstruir vidas que jamais poderão ser plenamente conhecidas. Maria nasce desse limite. Ela carrega silêncios e fragmentos extraídos de registros, não como substituta dessas mulheres, mas como uma figura através da qual suas ausências podem se tornar visíveis.

Phantasmas Anonymas parte da ideia de que os lugares guardam memória. Por meio da combinação entre documentário observacional, arquivo histórico, ficção e fabulação, o filme transforma o antigo Hospício Nacional de Alienados em um arquivo vivo, onde diferentes temporalidades coexistem. O próprio Palácio é um dos protagonistas. Quem conduz o espectador por seus corredores é Maria da Conceição, personagem ficcional inspirada em quase um século de registros de mulheres internadas.Um dos principais dispositivos formais do filme é o uso da linguagem dos arquivos. As palavras de Maria são construídas a partir de prontuários e teses psiquiátricas históricas. Classificações médicas aparecem na tela, enquanto as histórias das mulheres ganham corpo por meio da voz e da performance de Maria. Inicialmente, o espectador encontra uma sucessão de casos anônimos. Aos poucos, nomes e fotografias interrompem a linguagem dos diagnósticos, revelando que aquelas abstrações pertenciam a vidas concretas.

A dimensão observacional acompanha funcionários da universidade que compartilham histórias de fantasmas que, segundo dizem, habitam o prédio. Contadas com humor e intimidade, essas histórias refletem uma relação brasileira com o sobrenatural em que o extraordinário convive com o cotidiano. À medida que essas narrativas se acumulam, a fronteira entre história e imaginação se torna porosa. Intervenções performáticas acontecem nos mesmos espaços onde determinadas práticas ocorreram historicamente, entre elas uma histerectomia realizada sobre um útero de pelúcia. Na antiga sala de cirurgia, dois atores reproduzem os gestos de um procedimento clínico. A artificialidade quase infantil do objeto contrasta com a precisão cirúrgica, criando uma imagem absurda e violenta. A câmera permanece fixa, recusando o espetáculo da violência sobre o corpo, enquanto Maria observa a cena como paciente e testemunha.O filme também acompanha mulheres contemporâneas cujas experiências ecoam os arquivos. Por meio de depoimentos e encontros sutis com Maria, passado e presente se atravessam. O que começa como uma história de fantasmas aos poucos se revela uma investigação sobre a violência institucional e suas consequências atuais. Visualmente, o filme adota uma estética próxima à de uma fábula, construída a partir de planos longos e estáticos que valorizam a arquitetura do Palácio. O edifício é enquadrado por composições rígidas e frontais, enfatizando a ordem institucional. Lentes Nikkor vintage introduzem pequenas distorções e uma suavidade quase onírica, reforçando a coexistência de diferentes camadas temporais. As imagens contemporâneas inicialmente “ilustram” os textos dos arquivos, mas gradualmente estabelecem associações irônicas e inesperadas, expondo o absurdo do discurso psiquiátrico e criando momentos de beleza, tensão e humor.

Um tom irreverente atravessa o filme, presente nos diálogos, na trilha sonora e na montagem. A justaposição de cenas sombrias com a exuberante ópera Lucia di Lammermoor (1835), de Gaetano Donizetti, acentua a ironia e o sarcasmo. A escolha é deliberada: a ópera reproduz de forma estereotipada a imagem da mulher histérica. A intenção é evocar um elemento profundamente presente na cultura brasileira, que aparece inclusive nos momentos mais difíceis: o humor.

O projeto dialoga com tradições da antropofagia cultural brasileira, cosmologias afro-brasileiras e indígenas e o cinema ensaístico latino-americano. O tom fantasmagórico e surreal presente nas histórias contadas pelas pessoas rompe com a concepção linear do tempo associada à modernidade colonial. Pela perspectiva dos fantasmas, não se trata de um passado que retorna ao presente, mas de passado e presente que coexistem. Nesse sentido, a visão de mundo europeia convive com tradições populares indígenas e afro-brasileiras baseadas no animismo, que não estabelecem uma separação rígida entre os mundos espiritual e material. O filme incorpora essa perspectiva, em que os mortos podem ser uma forma de acessar a memória histórica e confrontar o apagamento.

www.clubsodafilmes.com

A Clubsoda Filmes, fundada por Rodrigo Boecker e Giovanna Giovanini, nasce em 2012. Entre seus projetos mais recentes está Phantasmas Anonymas, longa-metragem documental híbrido atualmente em pós-produção, apoiado pela Lei Paulo Gustavo (SECEC/RJ). A produtora também desenvolve Pavilhão de Observação, curta apoiado pelo Edital de Produção RioFilme 2026. Em 2024, a Clubsoda Filmes lançou o longa-metragem documental Cine Globo, selecionado para o Guarnicê 2025, o Festival 3 Margens e o 17º Santa Maria Vídeo e Cinema.

O curta Do Observatório Me Viram (2024) recebeu o prêmio no Festival de Cinema de Caeté 2025 e foi exibido em importantes festivais, entre eles a 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes, 26º Festival Kinoarte, 7º Festival Internacional de Cinema Hecho por Mujeres (Menção Honrosa), 31º Festival de Cinema de Vitória e o 50º Marin County Fair International Festival of Short Film.

Outro destaque recente é A Noite das Garrafadas (2023), selecionado para o 36º Cinélatino Toulouse, a 29ª Mostra Internacional de Cinema Documentário É Tudo Verdade e o 27º Forumdoc.BH, além de ter sido finalista do Prêmio Grande Otelo 2025. O curta documental Em Cena (2022) recebeu o Prêmio do Público no 17º Festival Entretodos.

Em 2021, o curta-metragem Banca Paraíso ampliou a presença internacional da produtora com sua seleção para o 24º Festival de Málaga. O filme também recebeu o Prêmio do Júri no 22º Ismailia International Film Festival e o prêmio de Melhor Curta-Metragem Brasileiro no 13º LoboFest. O documentário Dominique (2019) deu continuidade a essa trajetória, com exibições no Festival de Gramado, Thin Line Fest, Cine Las Américas, Festival de Cinema de Tiradentes e Mix Brasil, além de receber o prêmio de Melhor Roteiro no Curta Paranaguá 2024.

Entre as produções anteriores estão Quem Matou Chiquito Chaves? (2019), exibido em festivais como Atlantidoc, Curta Cinema e Bogoshorts; e o longa-metragem documental Um Dia para Susana (2018), apoiado pelo Tribeca Film Institute e pelo Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). O filme estreou na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e posteriormente foi exibido no Cine Ceará, Festival de Havana e Atlanta Film Festival, entre outros, recebendo o prêmio de Melhor Filme no FICFUSA 2020.

www.subitafilmes.com

Criada em 2017 por Moraga e Luciana Bassegio, a Súbita Filmes vem construindo uma trajetória consistente no cinema independente, com curtas-metragens como Lora (2020), Fiar o Vento (2023) e Como me Esquecer do Inverno (2024), exibidos e premiados em importantes festivais brasileiros e internacionais, entre eles o Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo – Kinoforum, a Mostra Internacional do Filme Documentário É Tudo Verdade, o Black Nights Film Festival (Estônia), o Female Eye Film Festival (Canadá), o Dublin Independent Film Festival (Irlanda) e o FESTin (Portugal).

O primeiro longa documental da produtora, Geografia Afetiva (2024), recebeu o Prêmio Doc Brasil Meeting no Brasil CineMundi 2018 e foi selecionado para o The New York Times Op-Docs Pitch Lab. O projeto também participou dos programas de indústria do DocSP (2018), DocMontevideo (2019) e do Thessaloniki Intl. Documentary Festival – Agora Doc Market (2020).

O filme estreou no Cine PE 2024, onde recebeu os prêmios de Melhor Fotografia, para Luciana Bassegio e Moraga, e Melhor Edição de Som. Também foi selecionado para a 14ª edição do Filmambiente – Festival Internacional de Cinema Ambiental e para o Earth Film Festival. O segundo longa-metragem documental da produtora, Itatira (2025), recebeu o Prêmio ProAC de Pós-Produção em 2022 e foi selecionado para o Lab Imersão DocBrasil, realizado no âmbito do Festival de Cinema de Tiradentes em 2023. O filme estreou no Cine PE 2025, onde recebeu o prêmio de Melhor Edição de Som. Luciana Bassegio assina a fotografia do longa Feito Pipa (2026), de Allan Deberton.

www.moreequalfilms.com

Fundada pelos cineastas Arash Maleki e Nazanin Nematollahi, a More Equal Films é uma produtora independente sediada em Los Angeles, dedicada ao desenvolvimento e à produção de documentários e filmes de ficção em colaboração com parceiros internacionais. A empresa aposta em um cinema autoral, ousado e centrado em personagens, explorando temas como memória cultural, deslocamento, gênero, resistência artística e sistemas de poder, com especial interesse por histórias que recuperam memórias e acontecimentos pouco conhecidos e questionam narrativas dominantes. Atuando entre a América do Norte, América Latina, Europa e Oriente Médio, a More Equal Films constrói colaborações de longo prazo com cineastas cujo trabalho articula inovação artística e relevância social.

Suas produções foram reconhecidas por importantes festivais e instituições internacionais, incluindo a Seleção Oficial da Cinéfondation no Festival de Cannes, Seattle International Film Festival, Palm Springs International ShortFest, HollyShorts Film Festival, Cinequest, Mill Valley Film Festival, Urbanworld Film Festival, SF DocFest e San Francisco International Jewish Film Festival. Os filmes da produtora também receberam distinções do American Pavilion no Festival de Cannes, o Platinum Remi Award de Melhor Longa-Metragem Estrangeiro no WorldFest-Houston International Film Festival, reconhecimento no Rome Prisma Film Awards e uma indicação ao 41º International Documentary Association (IDA) Documentary Awards.

clubsodaproducoes@gmail.com

+55 21 98111-6670

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